Recolhimento e Acolhimento: ações de autocuidado para quem cuida de um familiar idoso

Cuidar de um familiar idoso, especialmente quando há uma doença como o Alzheimer ou qualquer grau de demência, é acompanhar um processo de mudança profunda: nele, e em nós. A cada dia, algo se dissolve: uma lembrança, um gesto, uma parte do vínculo como era antes. É um caminho de metamorfose dolorosa, que exige algo que parece simples, mas é essencial: recolhimento e acolhimento.

O recolhimento aqui não é isolamento. É um tempo interno, em que a alma tenta elaborar o que está acontecendo. É o momento de sustentar o que dói sem se perder do próprio eixo.
E o acolhimento é o gesto psíquico de reconhecer o que sentimos, sem julgamentos: raiva, culpa, exaustão, amor, tristeza.

Muitos cuidadores acreditam que precisam ser fortes o tempo todo. Mas, na verdade, o cuidar toca lugares inconscientes: ativa antigas relações com nossos pais, por exemplo, desperta sentimentos infantis de impotência e desejo de ser visto.

Cuidar de alguém que perde a memória pode fazer emergir memórias nossas, dores antigas, repetições de papéis familiares.

Quando surge o medo, a revolta, a tristeza ou a raiva, é importante lembrar: esses sentimentos não são “defeitos”, mas mensageiros do que precisa ser escutado. Há algo legítimo aí.

Recolher-se é permitir um tempo de digestão psíquica.
Acolher-se é reconhecer a própria humanidade no meio do cansaço.

Tente observar:
– O que você sente depois de um dia difícil?
– Onde, no corpo, essa emoção se manifesta?
– Há algo que você tenta conter para não desabar?

Anotar, respirar, caminhar, permitir pequenos silêncios… tudo isso é também cuidado.
Porque o cuidar do outro começa no cuidar de si.

Na análise, o cuidador pode falar sobre o que vive sem culpa, para que a palavra substitua o peso.

O silêncio e o recolhimento, quando sustentados, podem se transformar em força e resiliência.

Com carinho,

Elaine Arnold | Psicanálise e Relações Familiares

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