Reconhecer o próprio lugar: Não inverta os papéis no momento de cuidado dos pais

 

Qual o lugar que você ocupa hoje?

Essa é uma pergunta fundamental, especialmente para quem cuida de alguém da própria família.
Muitos cuidadores de pais ou idosos doentes acabam, sem perceber, invertendo papéis: tornam-se pais dos próprios pais, assumem responsabilidades que não lhes cabem, carregam culpas e exigências que não nasceram com eles.

Na clínica psicanalítica, isso aparece como um deslocamento do lugar simbólico e à luz das Constelações Familiares, há uma inversão de lugares, o que gera desequilíbrio no sistema.

O filho que se torna o cuidador absoluto perde, aos poucos, o espaço de filho. A filha que “dá conta de tudo” se vê exausta, ressentida e sem espaço para suas próprias necessidades.
Essas inversões, mesmo que movidas por amor, trazem grande sofrimento psíquico.

Estar no próprio lugar é poder reconhecer o limite entre o eu e o outro, entre o que é meu e o que pertence à história do outro.
Quando ultrapassamos esse limite, por lealdade ou culpa, acabamos tomando um peso que não é nosso.

Pergunte a si mesma:

–  Tenho conseguido ser filha (ou filho), mesmo sendo cuidador(a)?
–  Sinto que preciso salvar, consertar ou compensar algo que não me cabe?
–  Tenho espaço para existir como pessoa, além do cuidado?
–  Me sinto culpada (ou culpado) se me priorizar em alguns momentos?

Essas reflexões ajudam a trazer à consciência os movimentos invisíveis que fazemos dentro do sistema familiar.

Reconhecer o próprio lugar é o primeiro passo para recuperar a força, a leveza e o sentido.
E essa é uma postura interna, em primeiro momento.

É possível, mesmo com alto grau de dependência, perceber que aquele ser, que colocou você no mundo, um gigante outrora, agora precisa de auxílio e apoio. E é com profundo respeito, sem tratá-los como crianças ou adultos regredidos, que a relação, mesmo diante de tanto peso no cuidado do dia a dia, pode se tornar mais leve, dentro de você.

A filha cuidadora que consegue se ver como parte, e não como todo, abre espaço para que o amor volte a circular de forma mais saudável.
Esse é um dos passos.

Meu pai ficou acamado quase 4 anos, totalmente dependente. Sei o quão desafiador é cuidar, sem trocar de lugar com nossos pais. Mas, preciso compartilhar que ao dar espaço à força daqueles que nos deram a vida, reconhecer que há força neles, mesmo que agora estejam frágeis, nos dá mais fôlego para os desafios das rotinas de cuidado.

Se estiver muito difícil essa caminhada, busque auxílio e apoio em uma escuta acolhedora. A terapia pode lhe ajudar demais nesse momento.

Com carinho,

Elaine Arnold 

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